Exclusivismo e Universalismo em Cristo
- Rui Martinho

- 30 de jan.
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O cristianismo é acusado de contrário ao universalismo

O cristianismo sofre muitos ataques. É acusado de cultuar um deus tribal que aos poucos evoluiu para um deus nacional e por fim, buscou revestir-se de universalidade. Mas não teria superado inteiramente o etnocentrismo.
Trata-se de monoteísmo e como tal é claramente exclusivista sob certo aspecto, como quando diz: “soli deo gratia”, isto é, graça ou glória só a Deus, o Deus de Abraão, Isaque e Jacob.
Devemos considerar, todavia, que o cristianismo mudou o mundo, conforme demonstrado por Vishal Mangalwadi (1949 – vivo) na obra O livro que fez o seu mudo. O pensador indiano afirma que o Ocidente deve ao cristianismo a sua singularidade como civilização.
Registre-se que um movimento liderado por alguém que não era rei, não foi general vitorioso, líder político, tendo sido condenado a morte na cruz, portanto derrotado, conquistou Roma e o Ocidente. Tudo isso é caso único na História e não se harmoniza com etnocentrismo de o acusa.
Singularidade não é exclusivismo
O cristianismo é uma das chamadas religiões do livro, por ter como fundamento um livro, melhor dizendo, um conjunto de livros que compões o cânone da tradição cristã: a bíblia ou as Escrituras.
Podemos começar a enumerar aspectos singulares do cristianismo pelo conjunto do fundamento canônico. Escritos ao longo de cerca de 1.600 anos, redigidos por cerca de quarenta pessoas com formação e condição de vida grandemente diversificada, guarda sobre tantas diferenças, coerência e unidade.
Temos reis entre os redatores, como Davi (970 a.C. – 900 a.C. e Salomão sucedeu ao Rei Davi, seu pai, sendo aproximadamente da mesma época. Temos Amós, que era um camponês, pastor de ovelhas e cultivador de sicômoros (figueiras selvagens). Moisés era profeta, líder do povo e sábio iniciado em toda a ciência do Egito ATOS 7.22 "E Moisés foi instruído em toda a ciência dos egípcios e era poderoso em suas palavras e obras.". Este trecho faz parte do discurso de Estevão, revisitando a história de Israel pouco antes do seu martírio. Esdras era sacerdote e escriba, apenas para citar alguns dos escritores da Bíblia Sagrada.
Outros eram pescadores simples, como Pedro e João, ambos do século primeiro da era cristã. Paulo de Tarso, também do século I d.C., era um grande erudito O conjunto produzido por eles é coeso, coerente e harmonioso. Tal condição sugere a hipótese de que algo sobrenatural agiu.
Só o cristianismo, entre todas as religiões, tem uma divindade que não é rei, general vitorioso ou líder político, que foi preso e executado com crueldade. Muitas tradições têm um bode expiatório, mas só o cristianismo tem um bode expiatório inocente, conforme relata Renê Girard (1923 – 2015), na obra Eu vi Satanás cair como um relâmpago. Isso também é singularidade, mas está longe de ser exclusivismo.
A doutrina de salvação cristã
Disse-lhes Jesus: Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao pai senão por mim (João14; 6). Esta declaração oferece um só caminho e exclui quaisquer outros. Não exclui pela condição social; não exclui por motivo de etnia; não sequer pelas obras, pois diz, em Efésios 2; 8-9: Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie. Exclusão é, portanto, única e exclusivamente por falta de fé, o que vale dizer, por não aceitar o senhorio de Cristo. Que o isenta de toda condenação.
O universalismo do evangelho está claramente explícito na Primeira Carta à Timóteo 2; 3-4: Porque isso é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador; que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.
Não trata de excluir ninguém, antes oferece salvação sem ônus, sem exigir sacrifícios, conforme lemos em Oseas 6; 6: Porque eu quero misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos. Isso também afasta a ideia de um deus furioso, que exige sacrifício.
A universalidade não é soteriologia universalista
A doutrina de salvação universalista afirma que todas as pessoas se salvarão, independentemente de fé, de obras, de sacrifícios e de ritos e de liturgias ou doutrinas. Trata-se de afirmação alheia ao cânone cristão. A bíblia declara explicitamente que existe um único caminho para a salvação e que fora dele o que resta é a condenação. A soteriologia universalista é extrabíblica. Resulta de cogitações humanas. Arroga-se a prerrogativa de julgar a Deus e fazer exigências a Ele.
É colocando Deus no banco dos réus que os universalistas dizem que não é justo condenar por transgredir a lei, criaturas incapazes de cumprir a mesma lei. Ignoram a oferta de salvação pela graça mediante a fé, do citado excerto de Efésios. Ignoram o convite feito registrado em Mateus 11; 28-30:
Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomais sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrarei descanso para vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.
Não encontramos nas palavras registradas por Mateus nenhum tipo de exigência que exclua os mais fracos ou menos dotados. O sacrifício de Jesus nos substituiu diante das consequências das nossas iniquidades. O universalismo, como doutrina de salvação, não é cristão.
O particularismo tribal ou étnico é um erro
A acusação de tribalismo ou de particularismo étnico, posta contra a tradição judaico-cristã, é uma acusação equivocada. Supõe que os judeus seriam, na bíblia, tratados de modo a discriminar os demais povos. A revelação, feita nas Escrituras, teria privilegiado os judeus. Mas Abraão escolheu ser fiel a Deus, escolha que teve como resposta premiá-lo com a condição de patriarca de grandes nações e de ter o Messias entre os seus descentes.
Todos os povos receberam a revelação, conforme lemos em Romanos 2; 14-15:
Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; os quais mostram a obra da lei inscrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência e os pensamentos, quer acusando-os, quer defendo-os.
Don Richardson (1935 – 2018), na obra O fator Melquiseque, relata a existência, entre os diversos povos, a crença no Deus criador de tudo, típico do monoteísmo, entre povos politeístas e animistas. A universalidade desta crença foi constatada por diversos antropólogos missionários. Todos os povos receberam a revelação, mas afastaram-se dela. Abraão – e Israel – não foram os únicos contemplados com a revelação. Apenas Abraão guardou a crença na revelação.
O privilégio de Israel foi ter o Messias entre os seus filhos.
Lemos em Gênesis 22; 18: Em tua semente serão abençoadas todas as todas as nações da terra; porquanto obedeceste a minha voz. A universalidade da bênção é explícita neste versículo. Israel, por ter o Messias entre os seus filhos, tem sobre os ombros um pesado fardo. O inimigo persegue Israel incansavelmente século após século.
A guisa de conclusão
O cristianismo é singular como doutrina e como crença. Mas é uma oferta de salvação universal. O caminho de tal salvação é exclusivo, mas não é excludente do ponto de vista étnico ou de condição social. O cristianismo é singular por ter um bode expiatório inocente, por não querer sacrifício, oferecer apenas justiça retributiva, oferecendo a oportunidade equidade. É singular por ser uma boa notícia de fardo leve e jugo suave.



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